Expresso São Pedro

Disclaimer: Este blog é dedicado ao resgate da memória do transporte por ônibus do Oeste do Rio Grande do Sul. Qualquer conteúdo que não tenha caráter de resgate histórico, não será veiculado aqui.

 

EXPRESSO SÃO PEDRO LTDA.

 A marcha inexorável do progresso, sempre carregou consigo, dentre outras necessidades, a necessidade de comunicação, e por isso, no ano de 1946 o empresário Anécio Maffini, começou a explorar o trajeto que ligava a pulsante Santa Maria, com a cidade de São Pedro do Sul.

 
 Na imagem de Matheus Seeger, o primeiro veículo utilizado
pela Empresa, no final dos anos 40.
 

 Após alguns anos realizando o transporte entre Santa Maria e São Pedro, aumentando a frota com alguns ônibus de carroceria artesanal em um primeiro momento, e depois com carrocerias consagradas como Eliziário e OTT, além de chassis clássicos como Ford e Dodge, a empresa São Pedro começou a expandir, não só a frota, mas os serviços.

Assim, nos idos de 1955 é feita a primeira expansão, com a linha Santa Maria - Jaguari, que levaria à pujante expansão feita pela região oeste do estado, com o tempo a malha de linhas cresceu significativamente, incorporando rotas para São Vicente do Sul, Jaguari, Santiago, São Luiz Gonzaga e São Borja, entre outras. A presença da Expresso São Pedro tornou-se uma referência constante nos terminais rodoviários da região, com veículos característicos e identidade visual reconhecível por gerações de passageiros.

Na foto de Sergio Maffini, o carro 4, indicando a linha São Borja - Santa Maria
 
Carro 5, foto de Sergio Maffini, na clássica linha a São Pedro
 
Se em tempos modernos o Oeste é uma região desafiadora para o transporte, naquela época
não poderia ser diferente. Na imagem de Sérgio Martire - In Memorian - o carro 5
indo rumo ao Cacequi.

Outra carroceria clássica: Asirma, neste belo trabalho de colorização feito por Sávio Tonon,
o carro 8 na linha Sâo Borja.
 
Que tempos aqueles... De Santiago até Santa Maria, carro 10
 
Carro 16, novinho, preparado para fazer linha à São Borja, Note-se que
indicando "Semi Direto", provavelmente via São Pedro, Mata, Jaguari,
Santiago e Unistalda.
 
E em frente à Rodoviária de Santiago, é possível identificar ao centro o Carro 18,
na linha Santa Maria x Porto Xavier.
 

A empresa manteve, por décadas, o compromisso com o transporte intermunicipal regular, com saídas diárias conectando pequenas cidades a polos regionais, além de operar em horários que atendiam tanto o público estudantil quanto trabalhadores e turistas.

 Com o passar dos anos, até a década de 1980, a Expresso São Pedro consolidou sua posição no cenário do transporte intermunicipal na região central, oeste e noroeste gaúcho. A década foi marcada por crescimento consistente, tanto em estrutura quanto em presença nas estradas, com uma frota robusta, rotas estratégicas e forte identidade local.
 

Durante esse período, a empresa operava uma frota expressiva composta por 40 ônibus de carrocerias variadas, entre Eliziário, Incasel, Marcopolo e Nielson, como o carro 200. Os chassis mais utilizados à época incluíam uma gama diversificada de modelos, OF-1313, OF-1113, LP-321 e, posteriormente, os OF-1315 — todos muito populares no setor rodoviário e de linhas regulares. Mas não só de linhas regulares a São Pedro vivia o momento, também tinha presença no Turismo.

 
Saindo da antiga rodoviária de Santa Maria, o carro 110. Na foto
do Jornal A Razão, recuperada pelo amigo Michel Santos,
do SM Bus.
 

Carro 130, fotografado por Régis Carvalho.
 
Irmão do 130, o carro 140. Um belo Incasel Continental III, na foto de Robson Machado
ao final dos anos 1990, já descaracterizado para a venda.

 
Desenho do carro 180, comumente utilizado na linha Alegrete x Ijuí
 
E na foto de Marco Antonio Schuster, o carro 200, no ano
de 1981, na praia de Copacabana.
 

Na entrada dos anos 1990, a São Pedro trazia mais carros novos, renovação que seria continuada por toda a década, tendo, inclusive, alguns carros míticos, como o Ciferal e o Caio Carolina.

Com a chegada dos novos Viaggio G4 800, o Jornal A Razão publicou: 

 
Jornal A Razão, recuperada pelo amigo Michel Santos,
do SM Bus.

A frota adquirida na década de 1990, foi marcante, pois na virada do milênio foram os carros que marcaram a paisagem da região.

 
No ano de 2012, o Carro 400, na linha Santa Rosa x Livramento.
 
Na foto de Roberto Santos, o mítico Ciferal Pódium, prefixo 450,
fazendo a já extinta linha Rosário do Sul x Mata.

Desenho do carro 450.

Na foto de Roberto Santos, o carro 650 cruzando a balsa da Vila Clara,
na linha Santa Maria x Mata, via São Pedro do Sul.
 

A década de 1990 também marcou uma importante expansão: as linhas interestaduais. Assim, começou a São Pedro a realizar linhas conectando São Borja, Santiago e Santa Maria, ao litoral catarinense, primeiramente com linhas à Blumenau, e posteriormente indo à Florianópolis e Balneário Camboriú.

Para cumprir com os serviços que essa expansão trazia, a São Pedro incorporou à sua frota, os Galleggiante, dotados de chassi Volvo, carros: 900, 1000, 1050, 1100, 1450 e 1500. Além de diversos carros diferenciados, como o 850, 950 e os Galleggiante de motor dianteiro OF-1620, como o 1600.

 
Carro 850, ex-Gratur, adquirido para a linha São Borja x Blumenau
 
Na foto de Elias Fleck, Carro 1050, em 1999
 
Carro 1600, na foto de Robson Machado,
indicando como destino "Florianópolis".
 

Já na entrada do novo milênio, a incursão pelas linhas interestaduais e a busca pelo litoral, tinham se tornado um objetivo forte da São Pedro, tanto que logo no descerrar das cortinas para a entrada dos anos 2000, a empresa incorporou o icônico Panorâmico DD, prefixo 2000, com um design de pintura diferenciado, e permaneceu pelos anos seguintes, investindo fortemente na exploração das linhas ao litoral gaúcho e catarinense, e também no turismo.


O icônico Panorâmico DD, prefixo 2000, na foto de Elias Fleck.
 
Em Balneário Camboriú o icônico Panorâmico DD,
prefixo 2000, na foto de Elias Fleck.

Na foto de Gabriel de Lima, o carro 2550, na garagem de Santiago.

Ainda, durante os anos mais modernos de operação da São Pedro, houve linhas interessantes, como neste caso, a Cacequi - Xangri-Lá.

 
Carro 2350, ao entardecer, entrando na antiga Rodoviária
de Tramandaí, na linha Cacequi x Xangri-Lá.

Carro 2850, muito utilizado nas linhas de Santiago a Florianópilis, e também
na Cacequi x Bal. Penha, em Sant'Ana do Livramento, aderindo
ao turismo de compras que é frequente na cidade..
 

Por outro lado, um dos pilares da São Pedro, foi a operação da conexão entre cidades de interior. Com o esvaziamento do campo, na primeira década de 2000, o fim dos peões rurais, e a busca de novas oportunidades em regiões industriais como a Serra Gaúcha, fez com que as linhas operadas pela São Pedro, como, por exemplo: Livramento x Santa Rosa, Alegrete x Ijui, Rosário do Sul x Mata, que transitavam por muitas regiões de interior, onde há campo vazio, não tivessem mais a mesma consistência de público que ajudou sua expansão nos anos 70 e 80.

Na primeira década do século 21, a operação do interior foi muito marcada por diversas reclamações do público, de entes políticos, entre outros, pelo estado de conservação e envelhecimento da frota utilizada. Diante do quadro da perda de passageiros, aumentos de custos operacionais e com o envelhecimento da frota, que portanto acabava exigindo incremento do orçamento para mantê-la, o declínio se tornava quase inevitável.

Ainda assim, a partir do ano de 2010, a São Pedro continuou buscando meios de ofertar o melhor a seu público, e ao longo da década iniciou e manteve um processo de renovação na frota, incorporando carros que pudessem atender melhor ao público em suas linhas.

 
Carro 2450, no ano de 2012.
 
Incorporado em 2010, o carro 2650, adquirido 0km.
Na foto em Sant'Ana do Livramento no ano de 2019, em uma das
últimas tentativas da São Pedro em recuperar as linhas regionais.

Carro 2750, em Santa Maria.
 
Carro 2950, em Cacequi, frequentemente utilizado na linha Santa Maria x Cacequi.
 
Outro carro que foi "pau pra toda obra" na Sâo Pedro, carro 3450 saindo de Santa Maria,
utilizado em todas as linhas da São Pedro, inclusive interestaduais e
ainda era utilizado no turismo.
 

Por outro lado, o declínio se tornava inevitável, o esvaziamento do campo, era um estopim para isso, já que fez com que a empresa tivesse que reduzir cada vez mais a sua operação, extinguindo diversas linhas, e transformando outras para manter linhas principais, que conectavam com Santa Maria: Cacequi, Santiago, São Pedro e São Borja, por exemplo, e Santiago com São Luiz Gonzaga, Santo Ângelo e Ijuí.

E ainda a frota que nos anos 90 foram motivo de festa e alegria, que na primeira década dos anos 2000 tinham se tornado um calo no sapato (ou uma bolha no pneu?) da São Pedro, tinha sido incluída no processo de melhoria da empresa, e contrastando com as renovações de frota, os carros mais antigos, mas que ainda tinham idade e condições para servir aos interesses da empresa, foram sendo reformados.

Assim, vários carros reformados se mantiveram por mais tempo na frota:

 
Na foto de Lucas Roratto, Carro 750, logo após a reforma, no ano de 2020.
 
Carro 1950, em 2014, na antiga Rodoviária de Livramento, numa
das raras vezes que fez a Santa Rosa x Livramento.
 
Carro 1950 na Rosário x São Vicente em 2015, após ser reformado.
 
Carro 1950 na Rosário x São Vicente em 2015, após ser reformado.
 
Carro 2020 (ex-1050) na antiga Rodoviária de Livramento, em 2013, na extinta Santa Rosa x Livramento
 

Finalmente, o espiral vertiginoso que era a queda de passageiros enfrentada em razão do êxodo das regiões onde a São Pedro operava foi agravado. 2020 trouxe a Pandemia, que causou uma suspensão total nas operações, e quando retomadas, cheias de restrições e cada vez menos passageiros, que é um retrato registrado em todo país e isso causou uma redução drástica nas linhas executadas pela empresa, que mesmo após a retomada em 2022, não foi revertida. 

 
Aguardando horário de retorno, o carro 1400 tomava descanso
à sombra, em Rosário do Sul, no ano de 2022.

No setor do transporte a Pandemia ainda trouxe dois outros fatores de convergência para a queda: a popularização de sistemas de caronas compartilhadas e viagens por aplicativo, e ainda, a necessidade de locomoção fez com que muitos adquirissem veículos próprios, isso somado à queda vertiginosa nos passageiros das linhas de interior, a perda das linhas interestaduais para empresas como a Viação União Santa Cruz, e a Catarinense, fez com que a São Pedro agonizasse em dificuldades após 2022.

E assim, como um dia cantaram os Irmãos Bertussi, "Esta tropeada da vida, um dia chega a seu fim", no dia 27 de março de 2025, a Expresso São Pedro decretasse o encerramento das operações, e no dia 28, seus últimos ônibus chegassem à Santa Maria, pondo fim à história de uma das mais clássicas empresas de ônibus do Rio Grande do Sul e do Oeste gaúcho.

PARA RELEMBRAR: No vídeo feito por Alexandro Ribeiro, no ano de 2011, na rodoviária de Santo Ângelo, a extinta linha Santiago x Santo Ângelo, feita pelo carro 900.

 

 
Agradecimentos:
 
Aos caros amigos do grupo "Expresso São Pedro" pelas imagens e detalhes de história compartilhados.
 

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